quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vício pela Internet




M.- Estou precisando de ajuda, sou uma pessoa que prefere o contato virtual ao pessoal, sou viciada na internet, não gosto de sair, mas se deixar fico o dia todo na internet e a noite também. Parece uma espécie de fuga, onde o vazio sentido parece ser preenchido de alguma forma. Já me afastei várias vezes, mas infelizmente acabei voltando. Sempre retorno pra sites de relacionamentos. Parece que evito contato pessoal, mas como não consigo preencher o vazio fico nessa fuga horrorosa. Me atrapalha a vida pessoal, a vida profissional, porque logicamente não estudo. Preciso de sua ajuda pra superar. Sinto culpada por isso e ao mesmo tempo nunca sobrevivo sem.


Resposta:

O vício pela internet hoje é considerado um problema psíquico, como qualquer outro tipo de dependência: bebidas, jogo, drogas, compras, alimentos,etc
 Os principais sintomas envolvem: perder a noção do tempo online; não conseguir se concentrar em outras tarefas; isolamento da família e amigos; sentir culpa quando usa a internet; sofrer de ansiedade; ficar deprimido; atualmente ser menos ativo socialmente do que costumava ser.

A dependência de internet é 'tratável' como qualquer outra. Para isso existem terapias, algumas mais direcionadas e focadas, tratando especificamente o comportamento de uso da internet, criando novos hábitos.

Outras terapias entendem que pensamento pode gerar comportamento. E esses pensamentos (chamados pensamentos automáticos) ocorrem devido a uma crença central. A partir do momento que essa crença é identificada, pode-se trabalhar estratégias para modificá-la. Dessa forma, modificará os pensamentos e, consequentemente, o comportamento compulsivo.
 Por exemplo: a crença de que as pessoas não nos valorizam pode gerar um pensamento do tipo: "só consigo estabelecer contatos sociais pela internet, pois se as pessoas me conhecerem pessoalmente não vão gostar de mim".

Você precisa reencontrar algo perdido em si mesma para que possa encontrar novos caminhos para sua vida. Como em qualquer vício, o primeiro passo - e o mais importante e difícil- você já deu : perceber, aceitar e assumir sua dificuldade. Procure ajuda para andar mais rápido na direção da saída.  Abraço
Aglair Grein-psicanalista


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Desencontros




C.-Eu tenho 42 anos e fui casada durante 7 anos.. tenho duas filhas lindas.Depois da minha separacao que foi muito dolorosa(porque foi com a traicao da minha melhor amiga com o meu ex-esposo), me mostrei forte, mas hoje em dia sinto como isso atrapalha o meu relacionamento atual, pois sou muito ciumenta  e desconfiada.
Ja estou nesse relacionamento ha 2 anos onde tambem tive a decepcao de ser traida, e alem dele nao ser uma pessoa comunicativa, nao temos muito dialogo ,ate o dia que tomei a decisao de voltar para o Brasil, onde as minhas filhas vivem com o pai.So que nessa altura ele comecou se demonstrar mais afetivo e tinha ate intencoes de casamento. Fiquei 6 meses no Brasil, mas tambem sofri a falta dele.Depois de 6 meses começamos a conversar pela net e resolvi voltar por causa dele.Sei que ele tem sentimentos por mim,que tambem esta muito magoado. Nao estou sabendo lidar com isso, pois ele me humilha muito com palavras.Tenho muito medo de nao saber lidar com isso,e tambem porque nao sinto o apoio dele e vontade que que eu va...me sinto perdida e comeco a sentir novamente os sintomas da depressao.


Resposta:
 Cara C. , seu e mail está tão confuso quanto seus sentimentos. Veja bem : você foi traída duplamente no primeiro casamento e depois escolheu outro traidor. Não enxerga algumas evidências, pois, apesar de relatar que o atual companheiro a humilha ( humilhação é humilhação, seja com palavras ou atitudes) e não manifesta claramente querê-la ao seu lado, você se sente culpada pela mágoa dele. Dele? Culpa-se do que e por que?

Acredito  que se sinta perdida, pois não está dirigindo o olhar para si mesma, perdeu a referência do seu valor, do seu desejo. Antes de esperar que o outro a queira, está na hora de você mesma se querer. Quando deixamos nosso bem estar e nosso destino na mão do outro, nos arriscamos a entrar numa roubada.
Do que você foge quando procura um lugar para onde ir? Não será de si mesma ? Faça um viagem para dentro de si afim de descobrir o que te impele a procurar e aceitar traições, humilhações e situações de insegurança. Gosto do Mia Couto quando diz que não precisamos procurar um lugar para ser feliz : nós devemos SER o lugar. 

É bom ainda cuidar da depressão para que não evolua. Isso não quer dizer tomar remédios para anestesiar sua angústia, mas sim procurar um apoio psicoterápico para resolver pendências emocionais da sua história de vida, do casamento anterior ( para não mais repetí-lo), para se reencontrar e se orientar. Abraço
Aglair Grein-psicanalista



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Família: as brigas cotidianas



M.R.
O meu cotidiano tem a ver com seu post da "violência ou agressão psicológica", que as vezes, sinto que estou cometendo com minha filha, que mora comigo, e tem dois filhos , e que os mantenho em minha casa, dando abrigo e ajudando financeiramente. Nossas brigas cotidianas são constantes, principalmente, na maneira de como ela encara sua vida em relação aos filhos e da forma como mantem seus quartos com roupas jogadas no chão, suas e de seus filhos, com os guarda-roupas livres e sem nenhuma peça no seu devido lugar -  ela é a filha mais velha e a tal da ovelha negra, porém, é trabalhadora, não falta no serviço e se esforça em conseguir se libertar da minha tutela, porém, sem grandes conquistas. Te pergunto: Isto é algum problema de ordem psicológica ou desvio de comportamento?


Resposta
Antes de tudo, parabéns pela iniciativa de dar um passo para mudar a situação.
Uma família funciona  numa dinâmica em que todos se afetam e provocam uns aos outros ações e reações, como numa engrenagem.Não é possível determinar aqui o que causa o comportamento da 'ovelha negra' (a ovelha negra é o 'sintoma' de uma desordem  familiar- não é necessariamente má, mas sim diferente), sem que se  analise sem paixão essa dinâmica. Há uma história familiar, onde não encontramos bandidos e mocinhos, mas comportamentos que originam conflitos. O que sua filha sinaliza com a falta de organização  - o que não ocorre fora de casa - pode ser uma forma de chamar a atenção para si, de manter-se numa rebeldia infantil, de mostrar que ainda precisa de cuidados.

Todo tipo de comportamento humano é decorrente de fatores de ordem psicológica, inclusive o seu quando a insulta, ameaça ou humilha. Mesmo com a intenção de estimulá-la, não é saudável. Nem para ela, nem para si mesmo. Você deve saber disso, senão não estaria incomodado.

De modo geral, é muito difícil para os envolvidos detectarem os 'nós' do problema relacional familiar, mas se cada um se dispuser a procurar em si o que pode ser melhorado- antes de acusar ou cobrar do outro- certamente as coisas tenderão a melhorar. Promover periodicamente conversas amigáveis, dirigidas a encontrar soluções, onde todos sejam livres para opinar- sem ofensas e ameaças - onde cada um ouça de verdade as razões do outro, poderá ser um útil exercício de construção da harmonia.  Abraço
Aglair Grein-Psicanalista

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Na corda bamba




L.R- Tenho 32 anos, solteira, moro há 10 anos com uma familia de parentes, e não sou feliz.Tenho um bom emprego, mas ele não me dá condição para viver sozinha. O que mais me faz sofrer é o sentimento de distancia dos meus pais e irmãos.Lembro que desde muito pequena morei com uma tia, com minha avó..sempre fora da casa dos meus pais. E eu gostava, chorava se ficasse em casa..Tenho saudades deles hoje, encontro as vezes quando vou visitá-los, mas não me sinto eu mesma junto com eles.Implico com manias, discuto, corrijo, critico e depois volto cheia de culpa e saudades.Fora isso, não tenho tido sorte no amor, encontro sempre homens errados, não sei como agir com eles.Tipo, não sei se telefono ou espero a iniciativa deles, não sei se estão afim e me seguro pra não mostrar sentimento e ficar exposta, é uma confusão que prefiro nem entrar nessas.Faz 2 anos que não tenho ninguém e a vida vai passando.Faço planos de mudar, mas não saem dos planos. Acho que não gosto de mim, sabe?



Cara L.R, veja bem que seus sentimentos são confusos e divididos com relação a seus pais e irmãos e também com os parceiros amorosos. Você não se sente "você mesma" em lugar algum ? Isso não acontece por acaso.  Percebo você, pelo que escreve, sem raízes, equilibrada numa corda bamba, sem confiança em si mesma e, por consequência, sem poder confiar nos outros.  Desta maneira fica muito difícil decidir sua vida, em todas as áreas: a escolha de um amor, a mudança para um lugar só seu, um trabalho que lhe propicie a independência financeira, e tudo mais.

Está claro que antes de tudo, para que as coisas aconteçam na sua vida, você terá que se conhecer, procurar no passado as razões da sua insegurança, encontrar um lugar no mundo que você possa ocupar de verdade. Precisa se reconstruir, construindo um renascimento e uma infância  por conta própria..  Como disse alguém , "as pessoas não nascem somente das suas mães, mas dão à luz a si mesmas muitas vezes durante a vida." Procure o suporte da psicanálise para este renascimento.Coragem ! abraço
Aglair Grein-Psicanalista

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Medo da morte



A.C- Tenho 41 anos, 2 filhas, e tenho um medo terrível da morte, e isso acaba me atrapalhando de Viver. Sou uma pessoa (me considero) esclarecida, leio sobre muitos artigos, mas esse medo me paralisa, fico imaginando como vai ser quando eu receber a noticia de que meu pai ou mãe ou marido, filhas morrer. Fico  pensando em como vai ser para minha família se eles receberem a noticia que eu morri ...  Esses pensamentos me atormentam, em cada aniversário que comemoro meu e dos meus. Já tomei Sertralina e aprendi um pouco a entender os sintomas da ansiedade, eu sei o que é certo mais não sei praticar isso .Por exemplo um dia uma amiga me contou que seu irmão antes de morrer pediu um copo de água, até hoje não consigo pedir que me deem um copo de água antes de dormir...Não sei o que fazer, ou melhor sei que da morte não escaparemos, mas sofro em pensar como e quando ela chegará. Tenho lutado muito contra meus pensamentos, mas as vezes se torna doloroso e difícil. Deixo de fazer muitas coisas virando assim escrava desse medo. Podes me ajudar ?

Resposta:

Você não está sozinha com seu medo, minha cara. Raros são os que falam com (aparente) tranquilidade sobre a morte. Este medo não é inato, mas comum a todos os mortais. Pensar na morte nunca é fácil, mesmo que seja parte de um processo natural, como é o nascimento. 

No entanto, seus pensamentos recorrentes e limitadores não são saudáveis e necessitam de atenção. Existem algumas hipóteses que  poderíamos levantar que pudessem justificar seu sofrimento,  mas nada que coubesse em uma resposta rápida, sem uma análise da sua história de vida e das características da sua personalidade.

O pensamento oriental nos ensina que a morte é mais temida por aqueles que têm uma vida mal vivida - ou não vivida. Diz que quem vive intensamente não teme a morte. Como você está vivendo a sua vida ? Lembre-se que quem teme sofrer já sofre o que teme.

Os remédios ajudam, mas não resolvem. Anestesiam os sentimentos e podem dar conforto temporário, mas a angústia pode voltar à tona se não for resolvida. Você deveria investigar com mais seriedade as raízes desta fixação com o inevitável, com a única garantia de todos os seres vivos. Deveria expressar mais seu medo, de preferência com um psicoterapeuta, até para descartar a hipótese de uma depressão ou outro distúrbio. Além do mais,  refletir e elaborar as questões relativas à morte pode transformar sua vida. É bem possível que levando seus fantasmas para tomar sol, eles desapareçam.

Como disse Gilberto Gil:
" Não tenho medo da morte, mas sim medo de morrer.
Qual seria a diferença?- você há de perguntar...
É que a morte já é depois que eu parar de respirar
E morrer ainda é aqui na vida, no sol, no ar...

Abraço,
Aglair Grein- psicanalista