segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pai X Filho



 C P.  Sou casada há 20 anos e tenho um filho de 13. Há pelo menos 2 anos a dinâmica familiar está bem complicada. Não sei se sou permissiva ou se meu estilo de educar é mais aberto do que o do meu marido, mas sinto que meu filho "joga" com o casal. Sei que no ano passado eu dei brecha para ele (filho) fazer o jogo, mas agora tenho tentado apoiar o meu marido para que o filho saiba que há regras, que os pais têm autoridade, etc.. Porém, o meu filho é muito questionador e um pouco egoísta, até porque é adolescente e filho único. E o meu marido tenta ser firme, mas muitas vezes é mais do que isso, beirando ao autoritarismo. Em resumo, a situação ficou tão ruim que o meu marido foi morar com a minha cunhada e só passa os finais de semana em casa. Só que, se por um lado a "pressão" melhorou, pois eles, de certa forma, disputavam a minha atenção, por outro lado, ficou mais pesado para mim que tenho que lidar com o meu filho praticamente sozinha no dia a dia. Agora, nem um dos dois quer morar junto e eu fico no meio tentando reaproxima-los. Sei que é um dia a dia cansativo e com brigas corriqueiras. Além disso, eu sinto que o meu marido é meio imaturo e nem sempre se posiciona como pai. Enfim, terapia familiar não rola, eles não querem fazer. Você tem alguma sugestão?

Resposta:
Já ouvi quem compare a família a uma empresa: para funcionar bem, a direção (pai e mãe) tem que definir objetivos, se reunir com frequência e tomar decisões conjuntas, partilhando as suas ideias com os restantes elementos (os filhos). Qualquer organização só consegue obter bons resultados se cada um souber o seu papel e executar as suas funções, e se todos rumarem na mesma direção. Quando os próprios dirigentes se desentendem e não chegam a acordo quanto às estratégias, o efeito pode ser desastroso. É assim numa empresa e não será muito diferente numa família.

Importante é sua consciencia da origem dos problemas. Por vezes, os pais nem têm a noção de que estão em desacordo. Procuram apoio porque acham que os filhos estão impossíveis e só depois é que percebem que o comportamento dos filhos é, em grande parte, resultado da desorganização familiar.
Se o pai e a mãe têm pontos de vista divergentes sobre a educação do filho, é importante que dialoguem e se coloquem de acordo, porque a criança compreenderá muito cedo que um dos adultos é mais 'manipulável' e passa a tirar proveito da situação. 

O mais significativo é você afirmar que terapia 'não rola'. Parece haver entre vocês três um silencioso pacto de conivência conveniente (consciente ou não )  para a separação. 
Se 'não rola' a terapia familiar, o que acha de começar por você, para que descubra como lidar com o problema? Problema muito provavelmente de raizes bem mais profundas do que a rebeldia do seu filho. Ele é apenas o sintoma. Abraço
Aglair Grein-psicanalista


quarta-feira, 15 de maio de 2013

A sordidez humana



A sordidez humana
"Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós, que ri quando o outro cai na calçada?"

Ando refletindo sobre nossa capacidade para o mal, a sordidez, a humilhação do outro. A tendência para a morte, não para a vida. Para a destruição, não para a criação. Para a mediocridade confortável, não para a audácia e o fervor que podem ser produtivos. Para a violência demente, não para a conciliação e a humanidade. E vi que isso daria livros e mais livros: se um santo filósofo disse que o ser humano é um anjo montado num porco, eu diria que o porco é desproporcionalmente grande para tal anjo.
Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada? Quem é esse que aguarda a gafe alheia para se divertir? Ou se o outro é traído pela pessoa amada ainda aumenta o conto, exagera, e espalha isso aos quatro ventos – talvez correndo para consolar falsamente o atingido?
Ilustração Atômica Studio

O que é essa coisa em nós, que dá mais ouvidos ao comentário maligno do que ao elogio, que sofre com o sucesso alheio e corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral? Quem é essa criatura em nós que não tem partido nem conhece lealdade, que ri dos honrados, debocha dos fiéis, mente e inventa para manchar a honra de alguém que está trabalhando pelo bem? Desgostamos tanto do outro que não lhe admitimos a alegria, algum tipo de sucesso ou reconhecimento? Quantas vezes ouvimos comentários como: "Ah, sim, ele tem uma mulher carinhosa, mas eu já soube que ele continua muito galinha". Ou: "Ela conseguiu um bom emprego, deve estar saindo com o chefe ou um assessor dele". Mais ainda: "O filho deles passou de primeira no vestibular, mas parece que...". Outras pérolas: "Ela é bem bonita, mas quanto preenchimento, Botox e quanta lipo...".

Detestamos o bem do outro. O porco em nós exulta e sufoca o anjo, quando conseguimos despertar sobre alguém suspeitas e desconfianças, lançar alguma calúnia ou requentar calúnias que já estavam esquecidas: mas como pode o outro se dar bem, ver seu trabalho reconhecido, ter admiração e aplauso, quando nos refocilamos na nossa nulidade? Nada disso! Queremos provocar sangue, cheirar fezes, causar medo, queremos a fogueira.
Não todos nem sempre. Mas que em nós espreita esse monstro inimaginável e poderoso, ou simplesmente medíocre e covarde, como é a maioria de nós, ah!, espreita. Afia as unhas, palita os dentes, sacode o comprido rabo, ajeita os chifres, lustra os cascos e, quando pode, dá seu bote. Ainda que seja um comentário aparentemente simples e inócuo, uma pequena lembrança pérfida, como dizer "Ah! sim, ele é um médico brilhante, um advogado competente, um político honrado, uma empresária capaz, uma boa mulher, mas eu soube que...", e aí se lança o malcheiroso petardo.

Isso vai bem mais longe do que calúnias e maledicências. Reside e se manifesta explicitamente no assassino que se imola para matar dezenas de inocentes num templo, incluindo entre as vítimas mulheres e crianças... e se dirá que é por idealismo, pela fé, porque seu Deus quis assim, porque terá em compensação o paraíso para si e seus descendentes. É o que acontece tanto no ladrão de tênis quanto no violador de meninas, e no rapaz drogado (ou não) que, para roubar 20 reais ou um celular, mata uma jovem grávida ou um estudante mal saído da adolescência, liquida a pauladas um casal de velhinhos, invade casas e extermina famílias inteiras que dormem.

A sordidez e a morte cochilam em nós, e nem todos conseguem domesticar isso. Ninguém me diga que o criminoso agiu apenas movido pelas circunstâncias, de resto é uma boa pessoa. Ninguém me diga que o caluniador é um bom pai, um filho amoroso, um profissional honesto, e apenas exala seu mortal veneno porque busca a verdade. Ninguém me diga que somos bonzinhos, e só por acaso lançamos o tiro fatal, feito de aço ou expresso em palavras. Ele nasce desse traço de perversão e sordidez que anima o porco, violento ou covarde, e faz chorar o anjo dentro de nós.

Lya Luft 

terça-feira, 19 de março de 2013

O complexo de vítima


O complexo de vítima

Autopiedade, incapacidade fantasiosa, cárcere auto imposto, castigo, culpa, lamentação, resignação e reclamação. E tudo isso como se tivesse arrastando correntes com pesos de chumbo por onde passa. Esse é o retrato daquele que carrega em si o complexo de vítima.

Um perfil preocupante, justamente por fazer o indivíduo crer que não é capaz de ter a própria vida nas mãos.  Buscam então através das reclamações que alguém se compadeça e os ajudem a mudar a própria vida. Alguns até se compadecem e tentam, mas existem coisas que ninguém realmente pode fazer por nós. Outros tantos sentem pena, repulsa, desprezo e aversão. O que só aumenta a sensação de ser um “coitadinho” realmente.

O coitadinho busca amor, atenção e um salvador, mostrando ao mundo o quanto sofre! Por trás de sua “coitadez”, com frequência se encontra alguém que se acredita muito especial por aguentar isso tudo e que muitas vezes não sai de relacionamentos tóxicos por achar que o outro não sobreviveria sem ele.

Nesse poço de “coitadez” também encontramos muitas fantasias negativas a respeito da realidade e especialmente de si mesmo, aonde não importa a situação, a vida vai ser vista mais ou menos dentro do prisma de vitimismo. Julgando-se inferior e incapaz.

Outro problema é que sabemos que os humanos fazem muitos acordos inconscientes, e toda vítima precisa de um algoz se quiser ser vítima. Não raro, esse vai ser o perfil que os sofredores por vocação procurarão (sem saber) para se relacionar. E vejam que triste é relacionar-se com alguém por uma necessidade de desempenhar um papel, e não por amor.

E qual seria o ganho em se viver desta forma? Honestamente não vejo muitos, mas existe um que se destaca além do ganho de atenção: por piedade, os outros tendem a pegar leve com o coitadinho. Passam a mão na cabecinha dele e dizem que vai ficar tudo bem.

Olhem que dinâmica complicada: se você passa a mão na cabeça do "coitado", você acaba reforçando a crença de que ele realmente é uma vítima. Se você ignora ou retruca, ele vai se sentir desprezado e um grande coitado.

Numa psicoterapia temos que trabalhar para devolver à vítima a responsabilidade pela própria vida. Fazê-la compreender e experimentar outras formas de funcionamento que podem ser muito mais gratificantes. Ela precisa sim de um salvador, mas esse salvador não será encontrado fora, apenas dentro de si. Em termos psicológicos, é preciso resgatar toda a projeção que ela faz no mundo externo e devolvê-la ao seu domínio de direito. Só fica a mercê do mundo externo quem ainda não se deu conta das forças que possui no mundo interno. No fim das contas o algoz número 1 da vítima é ela mesma.

[Via Escuta Analitica]

sábado, 16 de março de 2013

Medo de voltar para casa


M.- Consegui sair de uma depressao que me acompanhava por 5 anos. Pra mim e dificil comentar sobre esse assunto, pois acho que ja passei por todas  as etapas possiveis com medicamentos e terapias. Tambem ja cansei do papel de vitima. Concordo com todas as suas publicacoes por experiencia propria, mas nao estou conseguindo controlar meus ataques de ansiedade causados por medos de perda.Essa situacao ja se tornou tao cansativa que nem animo e vontade de escrever sobre o assunto tenho. Sabendo disso, sei que e bem dificil pra voce poder fazer qualquer tipo de analise. Neste momento me encontro fora do Brasil ha quase 1 ano, onde vim meio que me esconder e tentar me curar.Enfim, da depressao consegui me livrar, mas .. Tenho que voltar pra minha familia, mas toda vez que penso em deixar meu companheiro que tem me ajudado muito nao consigo me livrar do panico. Um email seria pouco pra te explicar minha estoria e realmente ela ja me cansou.

                       
Resposta:
A negação da realidade é um mecanismo de defesa psicológico e pode ser encontrado em indivíduos saudáveis, mas sua presença excessiva é, via de regra, indicação de possíveis conflitos paralisantes. Uma viagem pode ser benéfica e trazer de volta o bem estar e disposição para retomar a rotina, mas no seu caso percebe-se a angústia com a perspectiva de 'voltar para casa'.

Este "cansaço", esta indisposição para falar do assunto se deve, (assim como sua mudança de país) possivelmente, a uma resistencia em mexer em feridas escondidas, um artifício para escapar da dor que você finge não existir. É como se alguém, dentro de você, mentisse para te proteger.

Que parte de você quer fugir e não responde aos tratamentos? Que parte de você continua evitando a vida e sua realidade? É preciso mais do que uma resposta breve para esclarecer a insatisfação. É preciso um corajoso mergulho interior através de uma análise para descobrir as razões inconscientes do seu medo. Abraço
Aglair Grein- psicanalista

quinta-feira, 14 de março de 2013

A delicada posição da "Outra"



( Alguém me perguntou porque a abordagem do tema aqui se dá no feminino. Estatisticamente são as mulheres que disparado mais procuram apoio, esclarecimento e orientação quando não mais suportam o peso de uma relação dessa natureza. São elas que se expõem e confessam não mais aguentar as frustrações por se sentirem sempre a segunda opção. São as mulheres também que mais constroem fantasias românticas de um futuro a dois, sem considerar a realidade.  São elas, enfim que procuram o meu consultório. )

Tornar-se amante de um homem casado é sempre uma questão delicada. Movido por diversos motivos –amor, paixão, carência, sexo, comodismo–, esse tipo de relacionamento é mais comum do que se imagina e sempre esbarra nos limites da razão. Há mulheres que se sentem à vontade no papel da "outra" e desfrutam, sem culpa, da condição.Especialistas afirmam, no entanto, que ser amante é alternar, o tempo todo, sofrimento e prazer. 

As vantagens são a constante e intensa excitação inerente ao risco da descoberta, a sensação de novidade pela escassez ou dificuldade de encontros e ausência de rotina, a falta de responsabilidade ou compromisso com problemas do parceiro ou típicos de uma relação conjugal.

As desvantagens vão desde o pouco (ou nenhum) compartilhamento de momentos agradáveis em público, a impossibilidade de planejar e realizar juntos programas prolongados como viagens e férias, não poder contar com o amado em momentos difíceis, restrições quanto aos telefonemas e, ainda, a dificuldade em lidar com o ciúme da mulher oficial. Outro fator negativo é que o envolvimento nem sempre constrói laços afetivos entre o casal. Como os encontros são limitados e geralmente quando os dois se veem acabam transando, esse tipo de relacionamento fica vinculado ao sexo.

Elas são raras, mas existem: mulheres que preferem namorar homens casados simplesmente por diversão, conscientes de sua escolha. Cobranças e compromisso não fazem parte de seu vocabulário, ao contrário de sexo por prazer. Esse comportamento sempre existiu, mas vem ganhando maior visibilidade porque as mulheres estão mais independentes e, como os homens, assumem o que querem e gostam.

 O envolvimento com homens casados também acontece porque muitas mulheres aprendem a relacionar amor e dor desde a infância, ou seja, na sua vivência com os adultos significativos das suas vidas (pais, avós) são desprezadas, ignoradas, controladas e exigidas a sempre fazer o que o outro espera delas. Com isso crescem com baixa autoestima e escolhem inconscientemente sujeitos indisponíveis, já que não se sentem merecedoras de afeto ou atenção.

Segundo as especialistas, dificilmente os homens casados que mantêm relacionamentos extraconjugais se separam. O motivo? Apesar de a vida sexual com a oficial estar desgastada ou inexistente, muitos homens valorizam suas famílias e amam suas mulheres e seus filhos. Para os homens, o sexo é apenas uma parte do amor, o amor erótico. O casamento pode se sustentar com o amor de amizade, companheirismo, um projeto de vida comum etc.

Parece ironia, mas quando um homem decide se separar da "matriz", raramente assume a "filial". A "outra", muitas vezes, representa para o indivíduo a sensação de liberdade e, ao se separar, o homem prefere viver experiências novas e diversificadas, sem o compromisso de estar vinculado a ninguém. Em algumas poucas ocasiões, só quando é um amor grande e verdadeiro eles ficam com a amante. No entanto, vários homens arrumam uma relação extraconjugal para amenizar os problemas de seu casamento ou até para esquentá-lo. E aí, quando se separam, a amante deixa de ter uma função. Ele não precisa mais dela.