quarta-feira, 12 de junho de 2013

O sentimento de desprezo



T.-Sou pedagoga,solteira,independente e tenho 33 anos.Trabalho com um professor que mexe com meu ego. Ele se aproximou jogando charme, um sorriso cativante e pouco depois me adicionou no facebook. Passamos a conversar pelo face durante algum tempo: desde julho / 2012 até meados de abril deste ano. a conversa virava a madrugada a ponto de desligarmos o computador às 3h da manhã, mas algo me chamou atenção: a quantidade de mulheres que tem no facebook  Muitas o convidam para sair, dizem que sentem saudade dele. Ele me chamou para sair no mês de abril / 2013. Saímos, conversamos e acabei esticando a noite com ele no motel. Depois desse dia,ele disse que a noite foi muito boa, mas que se arrependeu e pelo que percebeu brincou com os meus sentimentos.
 De lá pra cá, ele me despreza. Fala quando quer, não me chama mais para bater papo no face, não responde as minhas mensagens, me ignora por completo. Parece que eu fiz um mal irreparável a ele. Não consigo entender esse tipo de comportamento. Penso que, em pleno século XXI, ele não sabe lidar com uma mulher decente e que está disposta a viver um relacionamento.  O que mais me angustia é o desprezo que ele me oferece. Por que sou desprezada se não fiz nenhum mal a ele? 

Resposta:
Desprezo é um  sentimento de desvalorização e antipatia, com base na convicção da inutilidade da pessoa desprezada . É semelhante ao ódio, mas carrega junto um sentimento de superioridade. A pessoa desprezada é considerada indigna e inferior. 

Há inumeras razões que a gente pode imaginar para justificar que este homem tenha se afastado de você depois da conquista. Especialmente, pelo perfil dele, a mais provável talvez seja a que não tem nenhum interesse em assumir um relacionamento. Mas você insiste no seu e mail que ele a despreza. Preciso lhe apontar que você pode estar projetando no outro sentimentos que nutre sobre si mesma. Não percebe seu próprio valor e sente-se desprezível. Trocando em miudos: é você quem se despreza.

Com todas as evidencias de que este homem não queria nada sério, durante quase um ano você apostou na ilusão. Aprenda a lição que este episódio trouxe para sua vida e fique de olhos mais abertos na direção do que Você deseja . Lição de casa : procurar ajuda psicológica para melhorar sua autoestima Abraço
Aglair Grein-psicanalista

terça-feira, 11 de junho de 2013

Mitos e Verdades Sobre a Psicanálise



O paciente fala deitado no divã e o analista só escuta, sentado numa poltrona confortável. Clichê no cinema, a cena nem sempre é exatamente essa nos consultórios. Aqui, toda a verdade sobre o folclore que envolve essa relação tão delicada.

Todas as terapias têm a mesma meta: lidar com a angústia e com o sofrimento, ajudando o paciente a ser mais feliz e a encontrar um sentido para a vida. Mas cada modalidade busca esses objetivos a sua maneira. Em alguns casos, a pessoa vai dramatizar e reviver situações pelas quais passou; em outros, vai tentar desatar nós desbloqueando tensões físicas. Na psicanálise, a fala é o fio condutor de um processo de autoconhecimento.

Tudo começou com Freud, no início do século passado: ao receber pacientes que já tinham consultado todos os médicos de Viena, sem sucesso. Freud percebeu que o ato de falar, sendo ouvido por alguém, era terapêutico. Mais do que isso, esse discurso podia trazer à tona conflitos que estavam em outro lugar além da mente racional, a esse lugar ele deu o nome de inconsciente. "Uma parte da mente a qual não temos acesso, mas que é capaz de produzir efeitos, como neuroses, angústias e sintomas físicos", explica a psicanalista Mania Deweik, de São Paulo.

A seguir, três especialistas falam sobre os mitos que cercam o assunto, mostrando que muito do que se diz sobre a psicanálise é um exagero.

PERGUNTAS FREQUENTES:

1- O psicanalista nunca fala durante a sessão?

“Eu falo e escuto, ensino, aprendo e também me divirto com meus pacientes", diz a psicanalista Mania Deweik. Segundo ela, talvez esse mito tenha surgido quando a obra de Freud foi traduzida do alemão para o inglês. "Ele escrevia de maneira literária, inspirava-se nos poetas, na tragédia grega, e seus discípulos ingleses entenderam que era preciso dar uma forma mais científica à sua teoria. Esse pode ter sido um dos fatores que contribuíram para a ideia de neutralidade.”

Na prática, existem psicanalistas que mantêm uma atitude mais sisuda. "É uma questão de estilo pessoal. Tem quem seja mais reservado e há os que são expansivos. Mas isso não é uma regra da terapia", diz o psicanalista gaúcho David E. Zimerman.

2- Para ter resultado, é preciso fazer terapia durante muitos anos?

Na época de Freud, os tratamentos eram intensivos ( sessões diárias-exceto aos domingos) e terminavam em meses. Mas, ao longo das décadas, a psicanálise se desenvolveu como um processo que durava muitos anos. Hoje a prática não corresponde a nenhuma das duas alternativas. "A psicanálise não pode ser definida como um tratamento breve, porque exige um tempo de elaboração, e esse tempo varia de pessoa para pessoa", diz a psicanalista Dulce Barras, de São Paulo. Na sua clínica, o usual é começar com duas sessões semanais, que podem se reduzir a uma, e o tratamento dura, em média, de três a cinco anos. Segundo Mania Deweik, o tratamento pode parecer longo para quem busca resultados imediatos contra a tristeza, o medo, a ansiedade. "Mas crescer não é um processo instantâneo. E, além disso, cada paciente tem sua história e seu ritmo", diz Mania.

(É preciso esclarecer que hoje há a combinação da Psicanálise com outras técnicas mais dinâmicas e focais, como a Psicoterapia de Orientação Analítica, que reduz significativamente o tempo do tratamento.)

3- A análise é um tratamento caro?

A ideia de um tratamento elitizado, que só acontece entre quatro paredes e com um paciente pagando caro por infinitas sessões, já não corresponde à realidade. "A psicanálise está nas creches, nos postos de saúde e nas instituições de saúde mental", explica Mania Deweik . O psicanalista David Zimerman afirma que a maioria das sociedades psicanalíticas mantém serviços ambulatoriais, com preços acessíveis à população. "Além disso, é normal analista e paciente conversarem e negociar a questão do dinheiro", diz Dulce Barros.

4- O paciente fala o tempo todo do passado, da mãe e do pai?

É importante trazer do passado as situações que continuam a perturbar ou a se repetir no presente, mas isso não significa que a análise vai girar em torno disso. "O único passado que interessa é o que não foi suficientemente elaborado, isto é, entendido e aceito. Por isso, continua incomodando o paciente", explica Mania.

Segundo Zimerman, o assunto de cada sessão fica a critério do paciente. É comum que a pessoa fale sobre situações cotidianas, ligadas ao trabalho ou à família. Mas, através desses temas que fluem espontaneamente, muitas vezes é possível fazer uma conexão com situações similares que já aconteceram. "Essas associações trazem compreensão. É o que tecnicamente chamamos de 'insight'. Nesse momento, o paciente se dá conta de que está agindo de determinada maneira porque tende a reagir da mesma forma. São jeitos de se comportar ligados a traumas ou relacionamentos antigos", explica o psicanalista. Nas palavras de Dulce Barros, os fatos imediatos são uma consequência do passado. "Na análise, a pessoa percebe que existe esse processo de repetição e que isso só termina quando há uma compreensão do que aconteceu.”

5- Tudo o que a pessoa faz tem a ver com sexo?

Segundo David Zimerman, essa falsa crença tem origem no próprio Freud, que relacionava todas as angústias e sintomas a algum problema sexual. "Hoje essa visão se justifica só em certos casos. Na maioria das vezes, há outros aspectos a considerar e que são mais importantes do que as questões ligadas ao sexo", explica o psicanalista. A questão é que, para Freud, o conceito de sexualidade ia muito além do ato sexual genital, incluindo várias outras manifestações prazerosas. "Nesse contexto, o sexo não deve ser entendido como relacionamento homem-mulher, mas como todas as experimentações ligadas ao prazer", explica Dulce Barras.

6- Muitos pacientes se apaixonam pelo psicanalista?

“Pode acontecer. Mas essa ‘paixão’ tem muitos coloridos, não só o do desejo sexual. Pode ser uma transferência da imagem da mãe, da amante, da competidora... Importante é que isso seja analisado como qualquer outra fantasia", explica Mania. Para Dulce, muitas vezes esse jogo de sedução esconde apenas uma outra forma de resistência. "O paciente imagina que, se encantar o médico, vai ser menos censurado." Nessa situação, o papel do psicanalista é decisivo. "Ele vai, sim, lidar com os sentimentos do paciente, mas não pode ficar envolvido com ele", explica Zimerman.

7- O paciente não pode saber nada sobre o seu psicanalista?

Freud atendia em sua própria casa, sob o mesmo teto em que moravam os oito filhos, a mulher e a cunhada. Portanto, a ideia de total neutralidade do profissional não tem nada a ver com ele, mas com a interpretação que seus seguidores fizeram de sua teoria. "Acredito que é preciso estabelecer limites, mas existem formas de olhar para isso. Cabe ao analista definir até que ponto a curiosidade do paciente é normal e a partir de que momento isso se transformar em mais um problema a ser trabalhado", explica Zimerman. Em uma relação tão íntima, muitas vezes o paciente passa a ver seu analista como um amigo, com quem gostaria de, por exemplo, poder sair para tomar um café. "Mas é importante preservar a cumplicidade que se conquistou dentro do tratamento. Por isso, a relação não deve mudar de formato", explica Mania, Segundo ela, não há hierarquia, mas o relacionamento não é de igual para igual. "Um fala e o outro escuta, as posições que as pessoas ocupam são diferentes. Essa não é uma relação de troca entre amigos", conclui Mania.

8- É obrigatório deitar no divã?

O que define a análise não é o divã, mas a escuta do analista. Todos concordam, porém, que o divã pode facilitar. "Freud atendia até 15 pessoas por dia. Não é fácil ficar submetido ao olhar do outro durante tanto tempo, tentando, ao mesmo tempo, captar o que aquela pessoa está dizendo", diz Mania. Apesar disso, os pacientes ficam à vontade para ocupar o espaço que desejam em seu consultório. Para o psicanalista David Zimerman, a pessoa fica livre para decidir. "Mas considero uma conquista do paciente quando ele decide fazer análise deitado. Isso apenas demonstra que ele sente confiança e não tem necessidade de tentar controlar seu analista", Isso também não é obrigatório para a psicanalista Dulce Barros, mas ela admite que a terapia flui mais tranquilamente com o paciente deitado. "Quem usa o divã geralmente está relaxado e menos defensivo.”

9- O psicanalista interpreta os sonhos?

O sonho é um dos caminhos de acesso ao inconsciente e auxilia o trabalho de análise. "Mas é o paciente que traz associações relacionadas ao sonho", explica Dulce. O analista ajuda e estimula a pessoa a fazer as suas próprias interpretações. "Não se trata de um oráculo, alguém que está dizendo algo que o outro não sabe... Na prática, o analista só junta aquilo que o paciente está próximo de descobrir por si mesmo", explica Mania.

10- É muito fácil enganar o analista?

Mesmo que o paciente minta, o analista tem como conduzir bem o tratamento. Na prática, isso não chega a ser importante, já que o analista não está preocupado com a veracidade dos fatos, mas com a forma como a pessoa conta suas verdades e também suas mentiras. "Mesmo que seja falsa, a história sempre vai ter a estrutura e o jeito de ser daquela pessoa. E isso é revelador", diz Mania. Para Zimerman, é importante que o analista assinale, em algum momento, que o paciente está mentindo para si mesmo em primeiro lugar.

COMO SABER SE ESTÁ FUNCIONANDO?


Ao longo do tempo, o paciente tem condições de saber se a terapia está surtindo efeito. "Quando a pessoa consegue mudar a realidade e percebe isso, ou se as coisas começam a dar certo no dia-a-dia, é possível associar essas situações a um tratamento bem sucedido", explica a psicanalista Dulce Barros. Segundo os especialistas, é normal sentir um certo incômodo em alguns momentos e resistir às colocações do analista e, por extensão, resistir ao tratamento. Mas, se esses sentimentos persistem por um periodo longo demais, é bom refletir sobre o que está acontecendo. "Quando não há empatia entre o paciente e o analista, por exemplo, o tratamento não evolui", explica a psicanalista Dulce.

Na prática, dá para se auto-avaliar a partir de situações cotidianas: o paciente que não falava em público de jeito nenhum, pode comemorar como um grande passo o fato de enfrentar cinco minutos de exposição durante uma reunião de trabalho. "Da mesma forma, quem antes evitava conversar com qualquer autoridade, com medo de críticas, vai se sentir fortalecido quando puder, aos poucos, encarar esses contatos com mais naturalidade, sem tanta insegurança", explica Mania Deweik. Segundo ela, um dos bons efeitos da análise é fazer com que a pessoa se perceba e se questione em cada situação, buscando saber por que reage de um jeito e não de outro. 

[Silvana Tavano]

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pai X Filho



 C P.  Sou casada há 20 anos e tenho um filho de 13. Há pelo menos 2 anos a dinâmica familiar está bem complicada. Não sei se sou permissiva ou se meu estilo de educar é mais aberto do que o do meu marido, mas sinto que meu filho "joga" com o casal. Sei que no ano passado eu dei brecha para ele (filho) fazer o jogo, mas agora tenho tentado apoiar o meu marido para que o filho saiba que há regras, que os pais têm autoridade, etc.. Porém, o meu filho é muito questionador e um pouco egoísta, até porque é adolescente e filho único. E o meu marido tenta ser firme, mas muitas vezes é mais do que isso, beirando ao autoritarismo. Em resumo, a situação ficou tão ruim que o meu marido foi morar com a minha cunhada e só passa os finais de semana em casa. Só que, se por um lado a "pressão" melhorou, pois eles, de certa forma, disputavam a minha atenção, por outro lado, ficou mais pesado para mim que tenho que lidar com o meu filho praticamente sozinha no dia a dia. Agora, nem um dos dois quer morar junto e eu fico no meio tentando reaproxima-los. Sei que é um dia a dia cansativo e com brigas corriqueiras. Além disso, eu sinto que o meu marido é meio imaturo e nem sempre se posiciona como pai. Enfim, terapia familiar não rola, eles não querem fazer. Você tem alguma sugestão?

Resposta:
Já ouvi quem compare a família a uma empresa: para funcionar bem, a direção (pai e mãe) tem que definir objetivos, se reunir com frequência e tomar decisões conjuntas, partilhando as suas ideias com os restantes elementos (os filhos). Qualquer organização só consegue obter bons resultados se cada um souber o seu papel e executar as suas funções, e se todos rumarem na mesma direção. Quando os próprios dirigentes se desentendem e não chegam a acordo quanto às estratégias, o efeito pode ser desastroso. É assim numa empresa e não será muito diferente numa família.

Importante é sua consciencia da origem dos problemas. Por vezes, os pais nem têm a noção de que estão em desacordo. Procuram apoio porque acham que os filhos estão impossíveis e só depois é que percebem que o comportamento dos filhos é, em grande parte, resultado da desorganização familiar.
Se o pai e a mãe têm pontos de vista divergentes sobre a educação do filho, é importante que dialoguem e se coloquem de acordo, porque a criança compreenderá muito cedo que um dos adultos é mais 'manipulável' e passa a tirar proveito da situação. 

O mais significativo é você afirmar que terapia 'não rola'. Parece haver entre vocês três um silencioso pacto de conivência conveniente (consciente ou não )  para a separação. 
Se 'não rola' a terapia familiar, o que acha de começar por você, para que descubra como lidar com o problema? Problema muito provavelmente de raizes bem mais profundas do que a rebeldia do seu filho. Ele é apenas o sintoma. Abraço
Aglair Grein-psicanalista


quarta-feira, 15 de maio de 2013

A sordidez humana



A sordidez humana
"Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós, que ri quando o outro cai na calçada?"

Ando refletindo sobre nossa capacidade para o mal, a sordidez, a humilhação do outro. A tendência para a morte, não para a vida. Para a destruição, não para a criação. Para a mediocridade confortável, não para a audácia e o fervor que podem ser produtivos. Para a violência demente, não para a conciliação e a humanidade. E vi que isso daria livros e mais livros: se um santo filósofo disse que o ser humano é um anjo montado num porco, eu diria que o porco é desproporcionalmente grande para tal anjo.
Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada? Quem é esse que aguarda a gafe alheia para se divertir? Ou se o outro é traído pela pessoa amada ainda aumenta o conto, exagera, e espalha isso aos quatro ventos – talvez correndo para consolar falsamente o atingido?
Ilustração Atômica Studio

O que é essa coisa em nós, que dá mais ouvidos ao comentário maligno do que ao elogio, que sofre com o sucesso alheio e corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral? Quem é essa criatura em nós que não tem partido nem conhece lealdade, que ri dos honrados, debocha dos fiéis, mente e inventa para manchar a honra de alguém que está trabalhando pelo bem? Desgostamos tanto do outro que não lhe admitimos a alegria, algum tipo de sucesso ou reconhecimento? Quantas vezes ouvimos comentários como: "Ah, sim, ele tem uma mulher carinhosa, mas eu já soube que ele continua muito galinha". Ou: "Ela conseguiu um bom emprego, deve estar saindo com o chefe ou um assessor dele". Mais ainda: "O filho deles passou de primeira no vestibular, mas parece que...". Outras pérolas: "Ela é bem bonita, mas quanto preenchimento, Botox e quanta lipo...".

Detestamos o bem do outro. O porco em nós exulta e sufoca o anjo, quando conseguimos despertar sobre alguém suspeitas e desconfianças, lançar alguma calúnia ou requentar calúnias que já estavam esquecidas: mas como pode o outro se dar bem, ver seu trabalho reconhecido, ter admiração e aplauso, quando nos refocilamos na nossa nulidade? Nada disso! Queremos provocar sangue, cheirar fezes, causar medo, queremos a fogueira.
Não todos nem sempre. Mas que em nós espreita esse monstro inimaginável e poderoso, ou simplesmente medíocre e covarde, como é a maioria de nós, ah!, espreita. Afia as unhas, palita os dentes, sacode o comprido rabo, ajeita os chifres, lustra os cascos e, quando pode, dá seu bote. Ainda que seja um comentário aparentemente simples e inócuo, uma pequena lembrança pérfida, como dizer "Ah! sim, ele é um médico brilhante, um advogado competente, um político honrado, uma empresária capaz, uma boa mulher, mas eu soube que...", e aí se lança o malcheiroso petardo.

Isso vai bem mais longe do que calúnias e maledicências. Reside e se manifesta explicitamente no assassino que se imola para matar dezenas de inocentes num templo, incluindo entre as vítimas mulheres e crianças... e se dirá que é por idealismo, pela fé, porque seu Deus quis assim, porque terá em compensação o paraíso para si e seus descendentes. É o que acontece tanto no ladrão de tênis quanto no violador de meninas, e no rapaz drogado (ou não) que, para roubar 20 reais ou um celular, mata uma jovem grávida ou um estudante mal saído da adolescência, liquida a pauladas um casal de velhinhos, invade casas e extermina famílias inteiras que dormem.

A sordidez e a morte cochilam em nós, e nem todos conseguem domesticar isso. Ninguém me diga que o criminoso agiu apenas movido pelas circunstâncias, de resto é uma boa pessoa. Ninguém me diga que o caluniador é um bom pai, um filho amoroso, um profissional honesto, e apenas exala seu mortal veneno porque busca a verdade. Ninguém me diga que somos bonzinhos, e só por acaso lançamos o tiro fatal, feito de aço ou expresso em palavras. Ele nasce desse traço de perversão e sordidez que anima o porco, violento ou covarde, e faz chorar o anjo dentro de nós.

Lya Luft 

terça-feira, 19 de março de 2013

O complexo de vítima


O complexo de vítima

Autopiedade, incapacidade fantasiosa, cárcere auto imposto, castigo, culpa, lamentação, resignação e reclamação. E tudo isso como se tivesse arrastando correntes com pesos de chumbo por onde passa. Esse é o retrato daquele que carrega em si o complexo de vítima.

Um perfil preocupante, justamente por fazer o indivíduo crer que não é capaz de ter a própria vida nas mãos.  Buscam então através das reclamações que alguém se compadeça e os ajudem a mudar a própria vida. Alguns até se compadecem e tentam, mas existem coisas que ninguém realmente pode fazer por nós. Outros tantos sentem pena, repulsa, desprezo e aversão. O que só aumenta a sensação de ser um “coitadinho” realmente.

O coitadinho busca amor, atenção e um salvador, mostrando ao mundo o quanto sofre! Por trás de sua “coitadez”, com frequência se encontra alguém que se acredita muito especial por aguentar isso tudo e que muitas vezes não sai de relacionamentos tóxicos por achar que o outro não sobreviveria sem ele.

Nesse poço de “coitadez” também encontramos muitas fantasias negativas a respeito da realidade e especialmente de si mesmo, aonde não importa a situação, a vida vai ser vista mais ou menos dentro do prisma de vitimismo. Julgando-se inferior e incapaz.

Outro problema é que sabemos que os humanos fazem muitos acordos inconscientes, e toda vítima precisa de um algoz se quiser ser vítima. Não raro, esse vai ser o perfil que os sofredores por vocação procurarão (sem saber) para se relacionar. E vejam que triste é relacionar-se com alguém por uma necessidade de desempenhar um papel, e não por amor.

E qual seria o ganho em se viver desta forma? Honestamente não vejo muitos, mas existe um que se destaca além do ganho de atenção: por piedade, os outros tendem a pegar leve com o coitadinho. Passam a mão na cabecinha dele e dizem que vai ficar tudo bem.

Olhem que dinâmica complicada: se você passa a mão na cabeça do "coitado", você acaba reforçando a crença de que ele realmente é uma vítima. Se você ignora ou retruca, ele vai se sentir desprezado e um grande coitado.

Numa psicoterapia temos que trabalhar para devolver à vítima a responsabilidade pela própria vida. Fazê-la compreender e experimentar outras formas de funcionamento que podem ser muito mais gratificantes. Ela precisa sim de um salvador, mas esse salvador não será encontrado fora, apenas dentro de si. Em termos psicológicos, é preciso resgatar toda a projeção que ela faz no mundo externo e devolvê-la ao seu domínio de direito. Só fica a mercê do mundo externo quem ainda não se deu conta das forças que possui no mundo interno. No fim das contas o algoz número 1 da vítima é ela mesma.

[Via Escuta Analitica]